Ao centro, uma pessoa tira um retrato de si mesmo diante do espelho. A imagem é cortada diagonalmente pelos raios de luz que saem do flash da câmera do celular. O rapaz tem uma forçosa expressão de alegria com um sorriso artificial e olhar desconcertante. Seu rosto, corpo, e resto da imagem apresenta distorções e desgastes decorrentes da pesada edição feita por aplicativos de celular.

Quando você sorri para a vida que vive, você acaba vivendo uma vida pela qual vale a pena sorrir

</técnica digital mista;>

{2021}

Jean Victor

[ Em meados dos anos 2000 Paris Hilton inaugura aquilo que virá a ser um estilo vida dominante nas décadas seguintes: a cultura da selfie e da promoção de si mesmo. Seus retratos estampados nas colunas sociais dos jornais da época anunciavam um modo de vida baseado na exposição e na propagação da própria imagem. Paris é celebridade por essência: é famosa por ser famosa. Mais tarde, as redes sociais oferecem novas possibilidades para as relações humanas, e a mega democratização da câmera de celular tornou a selfie não somente uma prática cotidiana como também, juntamente com o ambiente virtual, um exercício de confronto e de análise da própria imagem. Na rede, então, ser famoso torna-se uma possibilidade e um desejo comum. A imagem que concebemos de nós mesmos passa a ser mediada pelo smartphone e pela galeria virtual que criamos, curamos, gerimos. Hoje somos influencers, seja pelos mimos dos fãs, dos patrocinadores, seja pela aprovação dos seguidores. Nossos perfis são pedestais, altares para as imagens de nós mesmos, das quais cultuamos, e o mesmo esperamos que façam os nossos fiéis seguidores. Nesse ambiente de dados tudo é editável: a cor de fundo do app; a ordem das fotos; a bio; os comentários; o meu nariz; a pálpebra; os poros; a cor dos dentes; o sorriso que podia ser mais aberto; o bocão com um glow babado daquele filtro lá; etc. Aqui as nossas identidades digitais são maleáveis, um barro de dados que nós amassamos à nossa semelhança ideal. Assim como Deus nos fez uma vez, só que no caso dele de modo imperfeito. Aqui, imersos no ambiente virtual, estamos desprendidos das limitações do tempo e da carne, e nossa web-reputação torna-se cada vez mais importante, sendo comum a verdade da rede sobrepor os fatos do real. Por isso fica o apelo: siga o perfil @jeanvxctor, curta, comente e compartilhe, que isso ajuda bastante no engajamento.]